O caminho do Cão Sentado

 



Quando era criança, minha irmã, minha mãe e meu sobrinho mais velho saímos para uma pequena trilha famosa na cidade que eu morava: a trilha do Cão Sentado. Uma trilha leve, tranquila, bem sinalizada e moderada. 
Era a primeira "grande trilha" que eu estava fazendo e eu estava muito animada pelas aventuras que viveríamos ao longo da trilha. Na minha empolgação interna, eu subiria até o céu se preciso fosse. E assim fomos. 
Minha mãe já tinha uma idade avançada e um joelho mais avançado que a idade, então a deixamos repousando na base do parque, que por sinal é bem gostosinho de ficar, e fomos. Eu, minha irmã e meu sobrinho, que é 4 anos mais novo que eu. 
O Sol estava de rachar a cuca e não tínhamos nos preparado para subir aquele trajeto. Amadores que somos, nem água levamos. Eu, de chinelo; meu sobrinho, coitado... estava vendo a hora que colocaríamos o bichinho no lombo pra continuar ou o chutaríamos ladeira abaixo pra ele voltar rolando. Estava um dia ensolarado, como eu nunca vi igual em Friburgo, e minha irmã repetia incansavelmente: "Pensa na Coca gelada quando a gente voltar". Mas eu nem gosto de Coca-Cola. Acho que ela tentava convencer a si mesma com aquele mantra capitalista. 
E assim continuamos a nossa jornada. E passamos pela Toca da Onça, que até hoje não sei que graça que tem. E outras tocas surgiram que não me recordo mais. Eu tinha uns 11 anos, talvez. Minha memória sempre me compromete. 
Eu juro para vocês que não sei descrever o quão brochante foi a tal superestimada vista do Cão Sentado, que é essa daí da foto. Minha maturidade infantil não permitia comemorar aquele momento. Tínhamos chegado ao cume da caminhada e eu olhei aquela paisagem e a vontade era pular do penhasco de decepção. Eu lembro de ficar perguntando: "A gente subiu isso tudo pra isso?".
Lá estava aquele pedaço imenso de pedra no formato de um Cachorro realmente. Mas e daí?
E, então, eu olhei pra trás: Lembrei da empolgação inicial, lembrei que a minha mãe nunca veria a Toca besta da Onça, lembrei que eu consegui caminhar tuuuuudo aquilo e tinha conseguido cumprir aquela meta, lembrei de todo o trajeto. Olhei o Cachorro de Pedra mais uma vez, com aquele desgosto ainda e pensei: eu preciso gravar essa cena porque não teremos uma foto desse momento. 
Nesse momento minha irmã perguntou: "Vamos descer?". Concordamos e voltamos. 
Eu não me recordo de nada da volta. 
A volta era o conhecido: O caminho, o tempo, o cansaço, o calor, a falta de recursos.
Nada mais era novidade. 
Não tinha empolgação pela volta. 
Nem mesmo a "Coquinha gelada" ou a água gelada. 
Descíamos, eu e a decepção da vista, acompanhados pelo meu sobrinho e minha irmã. 
Nunca mais esqueci aquela subida. 
No fundo, acho que gostei da sensação do desafio, e foi justamente isso que fez a subida valer à pena e ser lembrada mais de 2 décadas depois. 
Eu dedico esse texto a todas as subidas inesquecíveis que eu já tive na vida, mesmo que a chegada fosse decepcionante. 
O caminho do Cão Sentado me ensinou que o valor da caminhada está na jornada e não na chegada. 
Hoje eu não tenho mais pressa de chegar a lugar algum, eu aprendi a apreciar cada passo, mesmo os mais tortos. 
Pra quê tanta pressa de chegar até sei lá onde? 

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